sexta-feira, 13 de março de 2015

Melhores amigos

Hoje, resolvi fazer algo diferente. Posto aqui não um texto meu, mas um de autoria de meu irmão, que, nos momentos de ócio criativo, também é chegado às letras =D



Eram melhores amigos, daquele tipo que parecem irmãos. Faziam tudo juntos, tinham os mesmos gostos (inclusive para mulheres) e os mesmos sonhos. Amigos de infância, vizinhos de porta, estudavam na mesma turma e, até mesmo na escolinha de futebol, jogavam sempre no mesmo time. Revezavam a braçadeira de capitão e nem mesmo isso era motivo para brigas ou inveja. A relação de amizade era tão forte, eram tão ligados que bastava um cair doente para o outro adoecer, pouco tempo depois.


Durante o tempo colegial, namoraram duas irmãs, gêmeas idênticas. Dividiam até os momentos mais românticos. Tudo ia muito bem, o tempo ia passando e a amizade crescendo cada vez mais. Então, veio a época da faculdade, a escolha do curso superior, os anseios da vida adulta. Com isso, surgiu a primeira diferença: enquanto Jonas queria Engenharia, Vicente flertava com o Direito. Foram dias angustiantes, questionamentos de ambas as partes, até que Jonas resolveu então cursar Direito, somente para agradar ao amigo e continuar a amizade.

Permaneceram colegas de turma e, enquanto Vicente era tido como excelente aluno, totalmente adaptado ao curso, Jonas se via cada vez mais triste, insatisfeito com a escolha e sem entusiasmo para os estudos. Sempre era aprovado nas disciplinas porque Vicente o "ajudava" nas provas. Vicente se via obrigado a isso, pois Jonas estava ali apenas para mantê-los unidos.

Quando Vicente resolveu fazer um estágio fora do país, tudo pareceu prestes a ruir. Jonas se viu pela primeira vez longe do amigo. Foi nesse período, sozinho, sem o amigo querido por perto, que ele conheceu Amanda, uma caloura do curso. Era uma jovem linda, a mais bela mulher que ele já tinha visto. Foi paixão imediata e rapidamente correspondida. Iniciaram um namoro e seu empenho na atividade acadêmica e suas notas deram uma guinada incrível.

Passaram-se meses e, enfim, era chegado o dia do retorno de Vicente. Os amigos estavam ansiosos pela retomada da amizade. Jonas foi buscá-lo no aeroporto, levando consigo sua amada (e estava nervosíssimo, ansioso pela aprovação do amigo). Para piorar a ansiedade, o voo estava atrasado em uma hora e meia, devido às más condições climáticas. Por ironia do destino, Jonas foi ao banheiro no exato momento em que Vicente cruzou a sala de desembarque e deu de cara com Amanda. Encantou-se com aquela desconhecida, praticamente paixão à primeira vista (realmente tinham o mesmo gosto para mulheres). Pensou em flertar, mas, por timidez e por estar procurando o amigo, resolveu desistir. Foi quando Jonas apareceu, deu um beijo na sua amada, cumprimentou efusivamente Vicente e partiu para as apresentações. Amanda, este é Vicente, meu grande amigo, meu melhor amigo, meu irmão. Vicente, esta é Amanda, a mulher mais linda que conheço, a mulher da minha vida, a única dona do meu coração. E Vicente a cumprimentou, num misto de tristeza e constrangimento. Estava tão sem graça que transpareceu o sentimento, a ponto de Jonas achar que o amigo a tinha reprovado.

Seguiram para casa e os minutos dentro do carro foram terríveis. Jonas puxava conversa e Vicente, monossilábico, parecia em outro planeta. Alguns dias se passaram e Jonas, cada vez mais triste, tinha certeza da reprovação do amigo e, talvez por isso, a amizade estava enfraquecida. Resolveu, então, chamar o amigo para uma conversa franca. Perguntou o porque da reprovação de Amanda e disse que se fosse preciso dava por acabado o relacionamento. Vicente o tranquilizou, teceu inúmeros elogios a ela, disse que seria impossível ele encontrar uma mulher melhor. Mas Jonas insistiu, pediu sinceridade, não conseguia entender o que estava acontecendo. Foi quando Vicente confessou. Disse estar perdidamente apaixonado pela mulher do seu melhor amigo e não via outra alternativa senão o distanciamento. Já não era mais digno daquela amizade.

Jonas mais uma vez se via em dúvida. Seguiria o namoro e acabaria com uma amizade tão bonita? Ou romperia com a mulher da sua vida para não afetar a relação entre os dois? Pensou, analisou, ponderou. Durante dias, só fazia isso. Amanda já não entendia o porquê do distanciamento. Então, ele tomou um decisão. Chamou o amigo e a namorada, explicou o ocorrido e deu sua sentença. Rompeu com Amanda, disse que agora ela era livre para iniciar um relacionamento com Vicente, um homem melhor que ele e que poderia fazê-la muito mais feliz. Vicente relutou, reclamou, disse que jamais aceitaria aquela situação e voltou a se sentir indigno de tamanha amizade. Não achava justo, mais uma vez, Jonas se sacrificar por ele. E resolveu se distanciar. Amanda passou a odiar Jonas por tal ato e ele então caiu em profundo desânimo. Tinha perdido de uma só vez o melhor amigo e o seu grande amor.

Meses se passaram, quando Jonas então soube do namoro entre Amanda e Vicente. Era também chegada a festa de formatura. Vicente foi orador da turma, fez um pronunciamento belíssimo, todos foram às lágrimas de tanta emoção. Colaram grau, tiveram um baile de gala e Amanda estava lá, sempre ao lado do novo amado, belíssima, estonteante. Todos invejavam Vicente, todos menos Jonas. Coube a Jonas o prêmio de consolação. Enamorou-se por Fabrícia, colega de turma, bonita, mas não tanto, e rejeitada pelos dois amigos durante os anos de faculdade.

Após 3 anos, Vicente casou-se com Amanda. Jonas foi apenas um convidado comum, sequer foi um dos padrinhos do noivo. Os dois amigos passaram de quase irmãos para meros colegas de classe. Vicente era reconhecido como um advogado de muito prestígio, enquanto Jonas não exercia a profissão. Casou-se com Fabrícia, um casamento mais por comodidade que realmente por amor ou qualquer outro sentimento.

Depois de algum tempo de casado, eis que, certo dia, Jonas, ao chegar de surpresa de uma viagem e adentrar em seu quarto, assusta-se e cai no chão. Ficou tão horrorizado com a cena, que seu coração não aguentou. Ali, literalmente, morrera de espanto. Em seu quarto, em sua cama, estavam sua mulher, Fabrícia, e seu amigo dos velhos tempos, Vicente. Os corpos nus, entrelaçados, os rostos corados e molhados de suor, após momentos tórridos de sexo.


Texto de Hélio Palácio de Andrade

domingo, 8 de março de 2015

Lembranças



Dias atrás surpreendi-me olhando antigas fotos. Como é gostosa sensação de rememorar, relembrar, reviver momentos delicadamente guardados na memória. Mais que comparar o passado com o presente, rindo das mudanças físicas, de comportamentos, de modinhas, é gostosa a saudade que dá daqueles momentos ali registrados. É quase como se as fotos tivessem cheiro e gosto.

Peguei-me pensando no nosso processo de constituição de memórias. Lembrei-me de uma situação da minha infância, quando estudava para uma prova de Português. Um dos assuntos da prova eram as benditas preposições. Após algumas horas de desespero tentando decorar (sim, sou dessa época!) a matéria, resolvi pegar a gramática e sair andando pela casa falando as bonitas em voz alta, de modo ritmado, quase cantado. Lembro que ria muito de como parecia uma boba fazendo aquilo. Mas funcionou. Não decorei as preposições. Aprendi-as. Tenho-as todas na memória até hoje, e isso já tem mais de vinte anos. Tudo bem, não sei em que mudou a minha vida o fato de saber dizer todas as preposições (ajudou muito nas provas, é verdade), mas tirei uma lição daquilo, embora só tenha voltado a pensar no assunto já adulta. Aprendi que a nossa memória é extremamente seletiva. E que, pelo menos para mim, as situações associadas com emoções são as que ficam. Se eu não tivesse feito papel de boba estudando as preposições, talvez as tivesse decorado para a prova e esquecido logo em seguida. Mas o ritmo cantado, os risos e a vergonha em poder ser vista se associaram ao aprendizado da matéria e fixaram-na em minha memória.

Das inúmeras situações que vivenciamos diariamente, provavelmente as que formarão nossas lembranças serão aquelas com alguma carga emocional implicada, aquelas que adquiriram relevância por nos tocar de alguma forma. Uma foto é significativa para mim quando, ao vê-la, quase consigo reviver a cena ali registrada. As fotos de antigamente, da minha época de infância e adolescência, antes das máquinas digitais ou smartphones – em que era preciso comprar o filme (!) e revelar os negativos para ter as fotos –, conseguem me evocar lembranças mais facilmente. Hoje tiramos fotos a toda hora, fazemos selfies e temos a comodidade de fazer tudo pelo celular. Temos muita facilidade, muitos estímulos. Entre tantos estímulos, fica difícil selecionar. E, se não selecionamos o que é significativo, esquecemos mais rapidamente.

Na nossa vida apressada de hoje, temos informação demais, alternativas demais. Ficamos perdidos em meio a tantos estímulos. É muito comum ligarmos o automático e sairmos para mais um dia cheio de compromissos e atividades. Na correria, sobra-nos pouco tempo para uma pausa, para tomar um caminho diferente, para desprogramar o cérebro da rotina. Para formar memórias.

Tenho algumas lembranças de infância que talvez meu filho nunca tenha semelhantes. Lembrança de brincar na rua até tarde, voltando para casa somente após ver os chinelos nas mãos de minha mãe, que eram o sinal para entrar imediatamente. Três fatores meio raros de ser ver, ainda mais juntos, hoje: brincar na rua; à noite; e ser corrigido a palmadas, chineladas ou seja lá o que for. Porque o mundo de hoje é diferente do de minha infância, e tenho de adequar-me a isso com o meu filho. Brincar fora de casa é igual a brincar no play, em um parque ou andar de bicicleta em algum lugar menos perigoso que a rua, sob nossa supervisão. E palmada já não pode, que dirá chinelada hoje em dia! Lembro das viagens de carro que fazíamos. Milhares de quilômetros por estradas esburacadas, sem segurança e com o carro lotado. Meu pai, único motorista nas aventuras de estrada, se aguentando à base de muito café. Creio que essas lembranças contribuíram para o fato de eu amar cheiro de café! Naquela época, lembro de curtir demais o percurso, sem pressa de chegar. Hoje, na maioria das vezes, viajamos de avião. Porque é mais rápido, mais seguro e a maioria das pessoas não quer perder dias de férias na estrada (claro que também não é mais tão caro como antes)! As preocupações com segurança, felizmente, predominam hoje e, tenho certeza que meus pais dariam importância a elas se existissem naquela época.

O fato é que são contextos diferentes. As mudanças acontecem em ritmo acelerado; não dá para comparar o mundo de hoje com o da década de oitenta. Mas, às vezes, me pego pensando em que tipos de lembranças meu filho terá de sua infância. Com tantos estímulos, tanta rapidez, tantos compromissos, tantas imposições.

Certa vez, ao buscá-lo na escola à tardinha, resolvi parar com ele para comermos um cachorro-quente, pois eu estava morta de fome. Dividimos um cachorro-quente e um refrigerante (melhor, eu comi quase tudo, pois ele não come a salsicha). No outro dia, ele pediu para irmos de novo e eu disse que não, pois não se pode comer isso sempre. Entre muitos e muitos por quês, expliquei-lhe que cachorro-quente e refrigerante só pode uma vez ou outra, pois não são muito saudáveis. Ele ignora constantemente minhas explicações e pede para comermos com frequência. Resolvi, por fim, deixar de lado todas as imposições a que estamos submetidos cotidianamente (cachorro-quente, como assim, e a dieta? Refrigerante para criança? Que crime!) e reservar-nos uns dias no mês para calmamente sentarmos junto ao carrinho de cachorro-quente, comermos, conversarmos, rirmos e curtir estarmos um com o outro. Uma quebra na rotina de voltar apressadamente para casa, em meio a um trânsito infernal. Talvez assim, quando ele for mais crescido, ao comer um cachorro-quente, sinta gosto de infância, gosto de momentos agradáveis vividos com sua mãe.

Essas pausas são importantes. Sempre que posso, e quando meu pequeno não está tão cansado que só quer mesmo ir para casa, faço essas pausas com ele. Seja na barraca de cachorro-quente, no parque, no shopping até. Porque o mais importante é desprogramar. Alterar um pouco a rota, fazer algo diferente, estar junto. Curtir o momento. Esquecer o celular, desligar por um instante do mundo, sair do automático. Entregar-se a momentos que virarão doces lembranças. Que deixarão gosto de saudade. Porque passa muito rápido. Quando espantar-me, ele terá crescido. E, dessa época, o que restará serão as lembranças.

Poderá gostar também de:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...