sexta-feira, 17 de julho de 2015

Elevadores, fobias e saquinhos de vômito (Prada!)


Claustrofobia. Ela aprendeu o que significava essa palavra estranha quando era criança. Quando, aos nove anos, ficou presa pela primeira vez no elevador do prédio em que morava. Estava sozinha, o que elevou o pavor à enésima potência. Ao todo, ficou cerca de cinquenta e cinco segundos trancada naquela espécie de caixa do pânico. A combinação de: 1) o porteiro ter sido muito eficiente; 2) o elevador ter parado no primeiro andar (bem próximo à portaria) e; 3) claro, ela quase ter colocado o edifício abaixo por causa dos gritos histéricos desesperados interromperam rapidamente seus instantes de agonia. Mas, não importava, o estrago já estava feito: o medo de lugares fechados – no seu caso, especificamente de elevadores – iria acompanhar-lhe dali em diante, até o último de seus dias.

Com medo de novas ocorrências como essa, ela desenvolveu suas defesas, na verdade, alguns pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos. Mas, quem não tinha um pouco dessas coisas de vez em quando? Que atire a primeira pedra quem é “normal” o tempo inteiro.

Ela começou contando quando entrava em elevadores, para aferir o tempo exato que se demorava dentro deles. Depois, descobriu-se boa com números e suas obsessões “evoluíram” à medida que ela crescia. Iniciou com operações simples: passou a somar, subtrair, multiplicar e dividir os algarismos que indicavam os andares nos elevadores. Quanto mais rápido fizesse os cálculos mentais, menor seria a probabilidade de ficar presa novamente. Parece que aquilo funcionava, pois jamais se repetiam episódios como aquele dos seus nove anos. Quando as operações básicas haviam se tornado simples demais, ela passou para as análises combinatórias: se pegava fazendo arranjos e combinações entre os algarismos durante suas “viagens elevatórias”. Não importa a ordem, combinação; se a ordem importa, arranjo, lembrava ela, e rapidamente calculava as possibilidades. A fobia adquirida na infância, pelo menos, tornou-a expert em matemática.

Adquiriu também um comportamento emitido todas as vezes que entrava em um elevador: rapidamente apertava o botão do ventilador, desligando-o. Não conseguia explicar a lógica daquilo, simplesmente o fazia e o alívio era imediato. Não importava se estivesse sozinha ou com o elevador lotado, ela simplesmente desligava o ventilador e ficava alheia aos protestos que porventura se seguiam.

Aquilo vinha surtindo efeito até então. Nunca mais havia ocorrido um novo episódio. Nunca mais, até aquela noite. A noite depois de um dia tenso de trabalho, quando tudo o que ela queria era se teletransportar para sua jacuzzi com vista panorâmica para o lago. Entrou apressada e distraída no cubículo e, como de costume, apertou o botão do ventilador. Mas, em vez do ventilador, o botão que alcançou foi o da luz e, imediatamente, tudo ficou escuro. As três pessoas que estavam lá dentro se assustaram com o apagar das luzes, mas, se assustaram ainda mais com os gritos dela. Até o momento em que compreendeu que fora ela quem havia, erroneamente, apagado as luzes, já estava ficando rouca de tanto berrar. Rapidamente acendeu as luzes e tentou alcançar o botão do ventilador.

Nesse momento, porém, o elevador deu um tranco e parou. As luzes se apagaram – agora não fora culpa dela – e se acenderam de novo. O elevador estava parado, sabia-se lá em que andar. Eles estavam presos. A cena dos seus nove anos voltou inteira em sua mente. Ela era novamente a garotinha assustada, bradando gritos histéricos e palavras desconexas.

- Foi minha culpa! Tudo porque não desliguei o ventilador! – ela falava com a voz sôfrega.

- Calma, tudo logo vai se resolver. Vou chamar o resgate. – placidamente falou o homem de meia-idade. Como os homens podem ser tão frios em situações de desespero?

Ele apertou o botão da campainha, mas nada aconteceu. Apertou novamente e... nenhum sinal. Ela viu o sangue ir embora de seus vasos quando percebeu que não conseguiriam chamar o socorro. As pernas cambalearam e logo não foram mais capazes de suportar o peso de seu corpo (só para deixar claro: o peso do seu corpo estava muito bem distribuído, com bastante massa magra, às custas de muito suor e alguns sacrifícios – somente alguns, porque ela tinha uma boa genética e jamais conseguiria abrir mão do chocolate).

Deixou-se pender ao chão e, com a cabeça atordoada, pôs-se a fazer cálculos mentais, como forma de aliviar o sofrimento. Quais as probabilidades de ela sair daquela caixa do pânico ilesa? Revirou a bolsa, procurando algo. Como não encontrava, virou-a no chão, deixando rolar alguns de seus pertences: as chaves com pelúcia de oncinha, a nécessaire inseparável, uma escova de cabelo magnetizada – que ela usou para dar três escovadas nas madeixas –, um iphone de última geração, uma garrafa de água Perrier. Não era isso que queria, mas água nessas situações é sempre bom – se for francesa, melhor ainda. Continuou revirando a bolsa e, enfim, encontrou: uma bolsinha Prada, com vários saquinhos para vômitos. Sempre os carregava consigo, para emergências como aquela. Tirou um dos saquinhos bonitinhos – sério que foram feitos para o fim a que se destinavam? – e começou a soprar dentro dele.

As três pessoas no elevador olhavam-na com um misto de preocupação, curiosidade e estupefação. A situação era dramática, mas também tragicômica. Ela não simplesmente passava mal, mas tinha todo um estilo para enfrentar seu pavor. Quando ela passou a fazer suas análises combinatórias não mais a nível mental, mas em um som débil, porém claramente audível, a surpresa foi geral. De onde saíra aquela criatura?

A senhorinha, que enfrentava a situação da forma mais serena possível, sacou de um truque para tentar fazê-la se sentir melhor: discou um número no celular e fingiu que falava com alguém. Repetiu as palavras do interlocutor de mentirinha, para acalmá-la: ele (quem quer que fosse ele) já estava a caminho, com as chaves do elevador. Era questão de segundos. Ela deve ter acreditado, pois a cor das faces começava a voltar. A respiração adquiriu um ritmo mais suave.

O rapaz com fones de ouvido, que parecia mais alheio a toda a cena, foi quem assumiu as honras de herói da noite: forçou as portas, uma, duas, três vezes, até que elas cederam e abriram alguns centímetros, o suficiente para fazê-la passar para fora. Os outros saíram em seguida.

Depois disso, ela não lembra de mais nada. Os outros contaram que o tempo total dentro do elevador foi de exatos três minutos. Ela achou que fossem três décadas. Ela não lembra como chegou a casa, pensou realmente na possibilidade de teletransporte, embora a opção mais aceitável – e confirmada depois – fosse a de que o homem de meia-idade, preocupado que ficou, levou-a em segurança até sua singela residência. Dizem que vários romances surgem após situações desesperadoras. Será possível?

Ela não sabia e nem queria pensar nisso, por ora. A única providência que tomou, no dia seguinte, e nos próximos também, foi a de evitar os elevadores. Adotou as escadas. Exercício é sempre bom! Só não de salto, aí já é sacrificante demais. Então, ela, cuidadosamente, tirava seus saltos Jimmy Choo, guardava-os em saquinhos imaculados, calçava um Loubotin baixinho e seguia. Sem medos. Sem pensamentos negativos. E com muito estilo.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Anedonia: um conto pós-moderno


Quarta-feira à noite. Ele serviu-se da costumeira taça de vinho diária. Fazia bem à saúde, já estava provado. Lembrou-se de alguns anos atrás, quando brindava com a ex-esposa com o mesmo vinho que degustava agora. Assim que casaram, tinham o hábito de brindar a tudo: à vida, à saúde, à paixão, ao amor, à sexta-feira, à quarta-feira e até ao fato de terem um bom vinho para beberem. E, nessa noite, lá estava ele: sem paixão, sem amor, sem companhia, solitário. Só lhe restara o vinho. Pensou que podia brindar a ele, o vinho, companheiro de sempre. Mas lembrou-se de que não tinha com quem brindar. Então continuou ali, simplesmente bebericando sua taça. Tentando, de alguma forma, entregar-se aos prazeres etílicos.

Como o estado ébrio demorou a aparecer, permitiu-se mais uma taça. E mais outra. E outra. A garrafa inteira. Algumas taças de vinho deixavam-no agitado. Toda a garrafa deixava-o deprimido. Percebeu-se evocando memórias há muito esquecidas. Se tivesse companhia agora, um ombro qualquer, não seria de espantar que o alugasse para derramar seu pranto. Entorpecido, percebeu algumas lágrimas rolarem. Em seguida, soluços. Estava tão bêbado que chorava?

Olhando para sua taça de vinho, viu-a. Linda, adorável, inteligente, sensual. A mulher da sua vida. Aquela que lhe arrebatara o coração. A quem jurou amar na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte os separasse. A morte não os separou. Quem se encarregou disso foi a própria vida. As agendas incompatíveis, o dia a dia sempre corrido, a rotina. Era perfeito quando estavam apaixonados. Quando a paixão foi embora, cerca de um ano depois, não cedeu lugar ao amor. Não havia cumplicidade suficiente para manterem juntas as escovas de dente nem dividirem os sonhos na mesma cama. As diferenças começaram a gritar. Já não havia um ponto comum que mantivesse aquelas duas individualidades em harmonia. Para quê insistir no que estava errado? Chegaram à mesma conclusão juntos. O amor jurado eterno se desfez após um ano e dois meses de união.

Fazia quatro anos que haviam se separado. A fase de raiva explícita e resquícios de sentimentos velados havia sido superada. Falar ou pensar nela já não lhe revirava o estômago nem provocava náuseas. Aliás, até aquela quarta-feira, quando, sob o efeito do vinho, sentiu algo a que ele podia chamar de saudade, a ex-mulher não lhe provocava qualquer efeito: nem raiva, nem saudade. Nada. Pensou estar imune a ela. Pensou estar imune à vida, na verdade. Já não sentia nada. Nem raiva, nem amor, nem dor, nem prazer.

Prazer. Essa era uma palavra quase ausente do seu atual repertório. Sensação há muito inexplorada. O mais contraditório era que ele estava constantemente em busca do prazer. Levava a sério o tal do carpe diem, pois, como tudo que lhe acontecia era tão rápido, tinha o amanhã como incerto demais para fazer planos a longo prazo. Prazer era algo que devia ser buscado a todo custo, comprado até. No entanto, era dificilmente encontrado. E, quando pensava experimentar a sensação, ela era tão fugaz que logo a perdia.

Assim foi com o carro de luxo há muito tempo desejado. Colocou-o no patamar de objeto de desejo, do tipo que só lhe era permitido sonhar e admirar de longe. Poder possuir, um dia, o carro dos sonhos era, para ele, uma meta, um plano que deveria pôr em prática para provar ao mundo que, sim, ele era capaz. O carrão que sonhava ter um dia era essencialmente um símbolo, um significante que o inseria na categoria das pessoas diferenciadas. Trabalhou arduamente para isso. Abriu mão de muitas coisas. Mas, quando pode, enfim, comprá-lo, comportou-se como uma criança com um brinquedo novo: ficou excitado por pouquíssimo tempo e logo o brinquedinho, no caso, o carrão, perdeu a graça.

Na busca incessante por prazer, acumulou muitos bens materiais. Sentir prazer era algo cada vez mais raro e caro. Da mesma forma, colecionava títulos. Fora lançado a um mundo competitivo demais. Precisava destacar-se dos outros. Protegia-se atrás dos títulos. Eram uma espécie de filtro que mostrava ao mundo apenas uma parte sua, a mais brilhante. Davam-lhe ares de importância. Ele gostava disso.

O problema era que, à medida em que aumentavam suas conquistas, mais exigente ficava seu limiar do prazer. Era como se vivesse sem rumo, em uma busca eterna por algo que ele nem sabia do que se tratar. Preenchia os buracos de sua alma com vinhos caros, mulheres, carrões.

Moldava-se a uma vida de aparências, às custas do sacrifício de sua essência. Vivia no piloto automático. Há tempos não acessava suas áreas mais profundas, estava sempre na superfície. O vinho da quarta-feira fez isso por ele.

Começou lembrando dela, Manuela. A mulher a quem amara e de quem pensara haver esquecido.  Tentou encontrar o ponto exato em que o relacionamento chegara ao fim. Não encontrou. Não houve uma grande crise. Houve mais um desgaste natural da relação. Pequenas coisas do dia a dia que se avolumaram. Palavras não ditas, mágoas não expostas, ressentimentos mútuos. Conviver é complicado. Eles não estavam prontos. Não naquela época. Talvez nem agora.

Entorpecido, travava diálogos mentais. Não sabia se estava completamente bêbado ou completamente lúcido. A ressaca seria infernal. Pelo vinho ou pela moral. Mas a sensação inebriante era boa. Ele, que andava anestesiado, pegou-se tomado de saudade. Saudade de Manuela. Saudade de ter com quem brindar. Saudade de amar e ser amado. Saudade de sentir saudade. De sentir prazer. De sentir qualquer coisa intensamente. Não, não estava imune a Manuela. Não estava imune à vida. E, sim, isso era bom.

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